Uso excessivo de telas em idosos: impactos do celular e das redes sociais na saúde mental

Durante muitos anos, as discussões sobre uso excessivo de telas estiveram concentradas principalmente em crianças e adolescentes. No entanto, smartphones, redes sociais e outras tecnologias digitais passaram a ocupar um espaço cada vez maior também na rotina da população idosa.

E essa mudança merece atenção.

Na terceira idade, fatores como aposentadoria, redução de compromissos externos, diminuição da atividade física, luto, distanciamento familiar, perda de papéis sociais e o fato de morar sozinho podem contribuir para que o smartphone ocupe longos períodos do dia.

Mas isso significa que a tecnologia faz mal à saúde mental do idoso? A resposta não é tão simples.

As evidências apresentadas pelos médicos Dr. Kalil Duailibi e Dr. Kaio Germano, no material O impacto da tecnologia na saúde mental do idoso: entre o uso excessivo de telas e as novas intervenções com inteligência artificial, mostram que a relação entre tecnologia e saúde mental na terceira idade é ambivalente.

Dependendo da maneira como é utilizada, a tecnologia pode estar associada a isolamento, sedentarismo e sintomas depressivos. Em outros contextos, pode ajudar a preservar vínculos, estimular a autonomia e reduzir o isolamento social.

Por isso, mais importante do que simplesmente perguntar “quantas horas um idoso passa no celular?” é compreender como, por que e para que essa tecnologia está sendo utilizada.

 

Por que o uso excessivo de celular em idosos merece atenção?

Diferentemente de crianças e adolescentes, que geralmente contam com algum nível de regulação externa do uso das telas por familiares, escola ou cuidadores, muitos idosos não possuem alguém regulando esse tempo.

Além disso, determinadas circunstâncias da terceira idade podem favorecer períodos prolongados diante das telas.

O smartphone pode estar presente justamente em uma fase marcada, para algumas pessoas, por redução de atividades externas, aposentadoria, luto, distanciamento familiar ou diminuição das relações sociais.

Nesse contexto, o uso problemático da internet pode funcionar como um mecanismo de “enfrentamento desadaptativo”, no qual o ambiente virtual passa a ser utilizado para lidar com emoções negativas, isolamento ou insatisfação com a vida.

É quando a tecnologia deixa de ser apenas uma ferramenta presente na rotina e começa a ocupar uma função diferente na vida daquele idoso.

 

Redes sociais e saúde mental dos idosos: o que mostram os estudos?

O material apresenta dados de uma investigação recente realizada na China.

Nesse estudo, mais de 98% dos idosos avaliados utilizavam redes sociais diariamente.

Outro dado chama atenção: aproximadamente 32% utilizavam essas plataformas por mais de quatro horas por dia.

Entre aqueles que relataram uso superior a seis horas diárias, foi encontrada probabilidade significativamente maior de apresentar: Ansiedade e Depressão.

Além disso, 20,3% da amostra preenchia critérios para dependência de redes sociais. Nesse grupo, as probabilidades de ansiedade e depressão foram ainda maiores.

Foi evidenciado uma associação entre determinados padrões de uso digital e sintomas de saúde mental. Porém, não significa que utilizar redes sociais por determinado número de horas seja, isoladamente, a causa de ansiedade ou depressão. E essa distinção é fundamental e, por isso, o resultado do estudo merece ser analisado com cuidado.

 

Quantas horas de tela são prejudiciais para um idoso?

Quando falamos em tempo de tela na terceira idade, olhar apenas para o número de horas pode não ser suficiente.

Segundo o material analisado, estudos demográficos indicam que a simples contagem de quantas vezes um idoso acessa a internet pode não apresentar qualquer relação com solidão ou saúde mental.

Isso sugere que o resultado clínico não depende somente da presença da tecnologia, mas também do tipo e da qualidade do padrão de uso.

Portanto, avaliar o impacto das telas na saúde mental do idoso exige uma análise mais ampla.

É preciso compreender não apenas quanto ele utiliza a tecnologia, mas como ela está inserida em sua rotina.

 

Uso passivo de redes sociais pode estar associado à depressão

Um dos aspectos mais importantes destacados no material é a diferença entre uso passivo e uso interativo da tecnologia.

O uso passivo, especialmente quando restrito ao entretenimento solitário, tende a estar associado a piores desfechos em saúde mental.

O tempo prolongado na internet e o consumo contínuo de vídeos curtos, como aqueles disponibilizados em plataformas como TikTok e Reels, têm sido relacionados a pontuações mais elevadas de sintomas depressivos.

Segundo os autores, esse padrão também pode:

  • reforçar o sedentarismo;
  • reduzir a participação em relações presenciais;
  • funcionar como forma de evitação emocional.

Isso significa que analisar somente o dispositivo — “ele passa muito tempo no celular” — pode esconder uma questão mais importante: qual é a finalidade desse uso?

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Tecnologia também pode ajudar a combater o isolamento social na terceira idade

A tecnologia não deve ser tratada apenas como um fator de risco.

O uso interativo e comunicacional pode exercer um papel protetor.

Segundo o material, idosos com maior competência digital e melhor letramento tecnológico tendem a apresentar menores índices de sintomas depressivos.

Da mesma forma, o uso de aplicativos de mensagens instantâneas e comunicação direta, como WhatsApp ou WeChat, aparece associado a escores mais baixos de depressão.

Quando a tecnologia é utilizada para:

preservar vínculos, manter contato com familiares, realizar videochamadas com netos ou participar ativamente de grupos e comunidades, ela pode reduzir o isolamento social e contribuir para a atenuação de sintomas ansiosos.

Essa diferença ajuda a compreender por que não é adequado classificar o uso da tecnologia como simplesmente “bom” ou “ruim”.

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Quando o uso de celular por idosos se torna problemático?

Na prática clínica, os autores propõem diferenciar três padrões principais de uso:

1. Uso funcional

A tecnologia exerce uma função positiva na vida do idoso, contribuindo para comunicação, vínculos, autonomia, organização da rotina ou acesso ao cuidado.

2. Uso excessivo

Existe uma utilização intensa da tecnologia, que precisa ser analisada dentro do contexto e das consequências para a rotina.

3. Uso problemático

O padrão digital passa a estar relacionado a prejuízos na vida do idoso.

Essa diferenciação é importante porque permite uma abordagem mais proporcional e individualizada.

Um idoso que utiliza tecnologia para conversar com familiares, organizar sua rotina e acessar teleatendimento não deve receber necessariamente a mesma orientação daquele que passa horas consumindo vídeos passivamente, apresenta perda de controle, piora do sono e isolamento crescente.

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Quais sinais devem chamar a atenção da família?

O material destaca que a avaliação da vida digital deve fazer parte da compreensão clínica do idoso, principalmente diante de algumas queixas.

Entre elas:

  • insônia;
  • ansiedade;
  • apatia;
  • irritabilidade;
  • piora cognitiva subjetiva;
  • sedentarismo;
  • depressão.

Na presença desses sintomas, é importante investigar não somente se existe uso de telas, mas principalmente o padrão, a finalidade e as consequências desse uso na rotina.

Isso não significa que o celular seja necessariamente responsável pelos sintomas.

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Uso excessivo de telas é causa ou consequência da depressão em idosos?

Esse é um dos cuidados mais importantes ao interpretar o assunto.

Nos casos de ansiedade, depressão, insônia ou declínio cognitivo, o uso problemático de telas deve ser compreendido como um possível fator associado, sem reducionismos.

De acordo com o material, ele pode representar: uma causa parcial, uma consequência do sofrimento psíquico ou um elemento de manutenção do quadro.

Por isso, a formulação clínica precisa considerar outros aspectos da vida do paciente, incluindo: humor, cognição, sono, funcionalidade, rede de apoio, história de vida, comorbidades e medicamentos em uso.

Avaliar somente o número de horas diante do celular seria insuficiente.

 

Celular e declínio cognitivo em idosos: o que precisamos observar?

O material também chama atenção para idosos que apresentam declínio cognitivo subjetivo ou alterações iniciais das funções executivas.

Nesses casos, a redução do controle inibitório, da flexibilidade cognitiva e da capacidade de autorregulação pode dificultar a interrupção do uso.

O smartphone passa a oferecer uma característica especialmente relevante nesse contexto: recompensa imediata, disponível continuamente e com pouca regulação externa.

Por isso, a relação entre cognição e comportamento digital também precisa ser considerada durante a avaliação clínica.

 

Proibir o celular do idoso é a solução?

Segundo os autores, a investigação clínica não deve partir de uma visão moralizante ou proibitiva da tecnologia.

O objetivo não é simplesmente classificar o uso digital como bom ou ruim.É compreender a função que ele exerce na vida daquela pessoa. Em determinadas situações, podem ser suficientes mudanças como:

  • estabelecer horários de uso;
  • reduzir as telas à noite;
  • retomar atividades presenciais;
  • preservar a atividade física;
  • organizar a rotina;
  • trabalhar aspectos relacionados ao sono;
  • estimular participação familiar.

Quando existe uso excessivo ou problemático, entretanto, pode ser necessário um plano mais estruturado, envolvendo psicoeducação, reorganização da rotina, manejo do sono, estímulo à atividade física, participação familiar e tratamento de transtornos psiquiátricos associados.

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Inteligência artificial pode ajudar na saúde mental dos idosos?

A evolução da tecnologia trouxe uma nova questão para a saúde mental na terceira idade: o uso da inteligência artificial.

Chatbots, assistentes virtuais, agentes conversacionais e robôs sociais vêm sendo estudados como possíveis recursos para reduzir solidão, isolamento social e sintomas depressivos, além de auxiliar na organização da rotina.

Segundo o material, essas tecnologias podem atuar por diferentes caminhos, oferecendo:

  • estímulo cognitivo;
  • alguma estruturação da rotina;
  • mais oportunidades de interação;
  • redução da sensação de abandono;
  • uma experiência de companhia.

Alguns estudos com robôs sociais, inclusive em formatos de animais, encontraram associação com redução da solidão e de sintomas depressivos em idosos, principalmente quando utilizados em sessões estruturadas e com tempo delimitado.

Mas existe uma diferença fundamental entre utilizar a tecnologia como recurso complementar de cuidado e permitir que ela substitua progressivamente relações humanas.

 

Inteligência artificial não substitui o vínculo humano

Tecnologias digitais não devem ser apresentadas como solução isolada para o sofrimento psíquico. Também precisam ser considerados riscos relacionados a:

privacidade, segurança de dados, desinformação, dependência emocional, redução do contato humano e possível dificuldade de alguns idosos em diferenciar respostas automatizadas de interações humanas.

Por isso, a tendência não deve ser tratar a inteligência artificial como vilã nem como solução definitiva.

Ela pode ser uma ferramenta capaz de ampliar o cuidado quando utilizada com critério.

Na geriatria, neurologia e psiquiatria, o desafio é integrar essas tecnologias sem retirar do centro da assistência aquilo que permanece essencial: vínculo, funcionalidade, autonomia, segurança e qualidade de vida.

 

Quando procurar ajuda profissional?

Mudanças relacionadas ao uso da tecnologia precisam ser avaliadas dentro do contexto geral de saúde do idoso.

Quando o uso de telas aparece acompanhado de ansiedade, depressão, insônia, apatia, irritabilidade, sedentarismo, isolamento, piora cognitiva ou prejuízo funcional, pode ser importante procurar uma avaliação profissional.

O objetivo não deve ser simplesmente retirar o celular.

É necessário compreender o que aquele comportamento representa e quais outros fatores podem estar envolvidos.

Na Bem Viver, entendemos que a saúde mental precisa ser avaliada de forma ampla, considerando sintomas, rotina, funcionalidade, vínculos, história de vida e contexto familiar.

A tecnologia já faz parte da vida contemporânea — inclusive na terceira idade.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja apenas:

“Quanto tempo esse idoso passa no celular?”

Mas:

“Como esse uso está interferindo em sua saúde, em seus vínculos, em sua autonomia e em sua qualidade de vida?”

Quando existem prejuízos, buscar avaliação profissional pode ser o primeiro passo para compreender o quadro e definir a melhor estratégia de cuidado.

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Fonte

DUAILIBI, Kalil; GERMANO, Kaio. O impacto da tecnologia na saúde mental do idoso: entre o uso excessivo de telas e as novas intervenções com inteligência artificial.

 

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